EXPOSIÇÃO "DEVOLVER A TERRA À PEDRA QUE ERA" É PRORROGADA

Mostra permanecerá em cartaz até outubro de 2023 na Oficina Francisco Brennand. Antes da renovação, o espaço Accademia passa por manutenção até 31 de outubro, mas as áreas expositivas externas continuam abertas à visitação

A exposição "Devolver a Pedra à Terra que Era", comemorativa dos 50 anos da Oficina Francisco Brennand, continuará em cartaz por mais um ano. Antes da prorrogação, o espaço Accademia, que abriga a mostra, passará por um período de oito dias fechado para manutenção, de 24 a 31 de outubro. A reabertura está marcada para a terça, dia 1º de novembro.


A área expositiva ao ar livre, que reúne 698 obras do artista, entre painéis e esculturas de cerâmica, no entanto, permanece aberta à visitação. O horário de funcionamento continua o mesmo, das 10h às 18h (bilheteria aberta até as 17h), com ingressos por R$ 15 (meia) e R$ 30.

No dia 11 de novembro de 1971 o artista Francisco Brennand, no alto de seus 44 anos, decidiu ocupar as ruínas da Cerâmica São João da Várzea, uma olaria fundada por seu pai, Ricardo Lacerda de Almeida Brennand, em 1917, com o objetivo de transformá-la em um ateliê no qual pudesse dar vazão à sua prolífica produção artística. No mês em que a Oficina Brennand completa meio século de existência, o complexo monumental de 15km2 e um dos principais cartões postais de Recife vai promover uma grande exposição do artista para celebrar a data. A inauguração da retrospectiva acontece pouco mais de dois anos após a importante reformulação institucional implementada no espaço, que se tornou oficialmente uma organização cultural sem fins lucrativos em setembro de 2019.


“Estamos muito felizes que a primeira exposição da Oficina Brennand, após ser transformada em um instituto, coincida com a celebração dos seus 50 anos e homenageie a trajetória de Francisco Brennand. É muito simbólico iniciarmos um projeto institucional a partir do seu legado, da sua história, e das múltiplas camadas que compõem um lugar tão único e diverso como esse, com suas heranças fabris e artísticas”, afirma Marianna Brennand, sobrinha-neta do artista e presidente da Oficina Brennand. “Além de homenagear a monumental trajetória de Brennand e a Oficina como seu eterno work in progress, essa exposição evidencia elementos importantes como apontamentos futuros para sua programação cultural. Nossa história é parte indissociável da nossa identidade, portanto revisitar o passado, a partir de uma pesquisa aprofundada e atenta, cumpre também esse importante papel de nos ajudar a pensar os próximos 50 anos desse espaço”, complementa a pernambucana, uma das grandes fomentadoras da obra do tio-avô.

A exposição, agora em cartaz até o dia --- de 2023, traz cerca de 200 itens, entre pinturas, esculturas, gravuras, serigrafias e documentos, muitos deles inéditos, abrangendo toda a trajetória do pernambucano falecido em dezembro de 2019, aos 92 anos. O panorama apresenta obras garimpadas do acervo permanente do instituto – que abriga o impressionante número de aproximadamente 3000 obras –, de colecionadores e de museus de todo o país. Entre elas, algumas pouco conhecidas do grande público, como a Série Amazônica, presente na Bienal de Arte de São Paulo de 1971, cujo título faz referência ao verso de João Cabral de Mello Neto no poema “O Ceramista”, dedicado ao artista pernambucano.


“Brennand tem uma obra muito rica e prolífica, então o mergulho nessa produção é sempre desafiador. Ainda que tenhamos mais de 200 itens em exibição, esse número é limitado se considerarmos o escopo de pesquisa de onde partimos. Ainda assim, estamos trabalhando com obras desde o início de sua produção, nos anos 50, e nos debruçando sobre múltiplas linguagens, a fim de mostrar a versatilidade dele como artista. Essa é também uma primeira incursão institucional a partir do novo programa proposto para a Oficina. Outras visadas críticas e recortes curatoriais estão por vir”, conta a sergipana Júlia Rebouças, diretora artística do instituto, cuja relação com a cidade de Recife e a obra de Brennand se iniciou ainda na infância, quando visitava a sua família materna, de origem portuguesa, que se instalou no bairro da Várzea, nos anos 60, e se consolidou mais adiante quando ingressou na Universidade Federal de Pernambuco, em 2002.


Ela divide a curadoria da retrospectiva com a venezuelana Julieta González, que ocupou o cargo de curadora na Tate Modern, Museu Tamayo Rufino, Museu de Arte do Bronx e do MASP.


“Quando eu era jovem eu me perguntava ‘por que não nasci mais mil quilômetros ao sul?’ Na minha juventude eu li ‘Visão do Paraíso’, de Sergio Buarque de Holanda, li ‘Os Sertões’, de Euclides da Cunha, assisti a diversos filmes de Glauber Rocha e me apaixonei por Lina Bo Bardi na faculdade de arquitetura na Venezuela. Depois vim a trabalhar no MASP e algumas pesquisas que fiz se cruzaram com a obra do Brennand, o que fez com que me aproximasse de sua produção, mas ainda não tão a fundo. Foi muito interessante fazer essa imersão no trabalho dele. Passei um mês e meio no Recife para investigar o acervo, mergulhar na obra e li muitos livros no período. O Brasil é realmente uma fonte inesgotável de tudo”, pondera a curadora independente, que organizou mais de 60 exposições ao longo de sua trajetória.


Embora o recorte curatorial tenha por base, de maneira ampla, os pilares conceituais Natureza, Território e Cosmologias – tópicos que norteiam o programa institucional da nova fase do instituto e marcam a produção do artista ao longo de sua carreira – a exposição se apoia de forma mais direta no primeiro eixo, que, no entanto, se intercala constantemente com os outros dois. A proposta de inaugurar a programação de exposições com a temática de Natureza se deu por um conjunto de fatores, a partir da ideia de se quebrar a separação que existe entre natureza e cultura.


“No universo de criação de Brennand há uma grande diversidade de espécies híbridas, que fusionam existências animais, minerais, vegetais, sempre em tensão com as formas humanas. A natureza também está presente a partir da convivência com essas duas entidades importantíssimas, presentes e constituintes ali do que ele entende como território da Oficina, o Rio Capibaribe e a mata da Várzea”, analisa Júlia, que em 2019 foi curadora da 36ª edição do Panorama da Arte Brasileira: Sertão, no MAM-SP, cocuradora da 32ª Bienal de São Paulo (2016) e integrou a equipe curatorial do Instituto Inhotim de 2007 a 2015, entre outros projetos relevantes. “Escolhemos Natureza como esse primeiro eixo, embora ele não esteja dissociado dos outros dois, porque é impossível se pensar em natureza sem pensar em território, sem pensar em cosmologias, e na composição mesmo da exposição vamos mostrando como esses conceitos estão articulados.”, continua.


Na concepção dos eixos norteadores propostos pela nova diretoria, o eixo Natureza parte do desafio de se construir pontes para a compreensão integrada entre natureza, cultura, arte e meio ambiente, discutindo o papel do ecossistema local para o entendimento da missão, identidade, comunicação e vocação institucional do espaço. O conceito Território busca ampliar as relações entre entorno e produção artística, com foco na geografia e história da região, com o compromisso social do desenvolvimento de uma comunidade mais sustentável, justa e integrada. Cosmologias, por sua vez, pretende abordar o aspecto fabulador e narrativo, por meio de diferentes cosmovisões que, na obra de Francisco Brennand, manifestam-se em evocações arquetípicas, mitologias, literatura, filosofia.


A exposição ‘Devolver a terra à pedra que era: 50 anos da Oficina Brennand’ é uma realização do Ministério do Turismo, da Oficina Brennand e do Bradesco, com patrocínio da Copergas. A Oficina conta ainda com o Grupo Cornélio Brennand como mantenedor e patrocínio do Instituto Cultural Vale.


Fotos: Rennan Peixe

SERVIÇO

Exposição: ‘Devolver a terra à pedra que era: 50 anos da Oficina Brennand’

Oficina Brennand: Propriedade Santos Cosme e Damião, s/n, Várzea

| +55 (81) 2011-5466

Abertura para convidados: 20 de novembro de 2021

Período da exposição: Até outubro de 2023

Visitação*: Terça–Domingo: 10h–18h (fechamento da bilheteria às 17h)

Fechado às segundas-feiras

Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)


*Exposição será fechada para manutenção de 24 a 31 de outubro de 2022.